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Poema do Desamor

Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
 Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

 Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

 Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

 Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

 Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

 Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

 Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Alexande O'Neill


Poema musicado aqui por Tiago Bettencourt.

Mudança

(...) Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.(...)
Clarice Lispector

Diálogo

(...) Onde estamos?, perguntou.
O que disseste, papá?
Nada. Está tudo bem. Dorme.
Vai correr tudo bem, não vai, papá?
Vai, sim.
E não nos vai acontecer mal nenhum, pois não?
Claro que não.
Porque nós transportamos o fogo.
Sim, porque nós transportamos o fogo.

 Cormac McCarthy in The Road (2006)