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Bater contra a parede

(...) A Grécia vive num profundo e prolongado sufoco, com níveis de pobreza e de desemprego intoleráveis. É pois um povo disposto a tudo e que precisa de rasgar para fora porque já está saturado de rasgar por dentro. E porque a austeridade, sendo inevitável, falhou as expectativas que criou de que depois de anos de tempestade alguma bonança viria. Não veio. Depois de austeridade veio austeridade. Não veio crescimento nem recuperação.

A vitória do Syriza inspira a esquerda europeia e força uma negociação com a ortodoxia austeritária europeia, que mesmo depois do fracasso da sua resposta não tem outra para dar. A pressão externa para domar o futuro governo grego será brutal. Mas não deixa de ser assustador que a União Europeia, cinco anos de austeridade depois, se tenha tornado o inimigo da Grécia e o elemento agregador de quem, vontando Syriza, vota contra esta Europa.
(Pedro Santos Guerreiro in Expresso)

Syriza open a way to hope?

"Hoje é um dia importante. Espero que o partido Syriza ganhe as eleições com maioria absoluta. Alexis Tsipras é inteligente, corajoso, grego e europeu: não quer que a Grécia deixe de usar o euro.

Se ganhar com maioria, fará frente à União Europeia e defenderá uma união financeira que ajudará os países mais pobres, como Portugal.

Portugal não pode continuar a fingir que é diferente da Grécia. Não é. A Espanha, maior, também sabe que faz parte do mesmo grupo do savoir vivre que inclui a Itália inteira e quase toda a França.

A verdade é que existe — e sempre existiu — uma Europa do Sul, em que cada país se dividiu, inutilmente, entre Norte e Sul.

Se o Syriza ganhar (ou perder), devemos abraçá-lo e solidarizarmo-nos com ele. As eleições nacionais são a última afirmação da escolha política. (...)
(Miguel Esteves Cardoso in Público)

O legado de Péricles

Para muitos o pai da "democracia participativa", por oposição à "democracia limitada" de Clístenes. No discurso transcrito por Tucídides, em homenagem aos soldados mortos na Primeira Guerra do Peloponeso, Péricles terá dito em 430 a.C.:

A nossa constituição não copia as leis dos estados vizinhos. Bem pelo contrário, somos mais um modelo para os outros do que imitadores de costumes alheios. A nossa administração favorece a maioria do povo, e não uma restrita minoria. É por isso que lhe chamamos democracia. Quando temos que recorrer às leis, verificamos que elas conferem a todos o mesmo nível de justiça. [...] A progressão na vida pública depende do mérito e das capacidades de cada um, sem olhar à sua origem social. Do mesmo modo, se um homem possui aptidões para servir o Estado, não é a sua eventual pobreza que o impede de o fazer. [...] A liberdade nas nossas relações privadas não faz de nós cidadãos sem leis. Contra este receio, a respectiva salvaguarda encontra-se na nossa educação, que nos leva a obedecer aos magistrados e ao cumprimento das leis [...].

Os nossos homens públicos, além da actividade política, têm que atender aos seus negócios particulares, enquanto os nossos cidadãos comuns, embora ocupados com os seus ofícios, não deixam de ser atentos juízes dos assuntos públicos. [...] Nós, Atenienses, somos capazes de ajuizar todos os acontecimentos públicos, e, em vez de considerarmos a discussão dos mesmos como um obstáculo para a acção, pensamos que ela constitui um passo prévio indispensável a qualquer acção prudente.
Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Lisboa, Edições Sílabo, 2008 (adaptado).


Trata-se de um texto com quase 2500 anos, que apesar de um pouco datado, pode ajudar a perceber o presente. É que, quer se goste ou não, foram os gregos que inventaram esta coisa da democracia.

ultimatum ao referendum

A jogada grega, xeque-mate

O governo grego propõe-se referendar o perdão parcial da dívida proposto pela Europa. Melhor, "oferecido" pela Europa, como de uma dádiva se tratasse, pese embora à custa de mais austeridade daquele povo.


Claro que os gregos perceberam que esse perdão constituirá o fim da soberania por muitos anos. Os mercados ficarão fechados para a Grécia durante décadas; pelo menos enquanto houver memória das perdas. A Grécia ficará refém do directório franco-germânico para sobreviver, ainda que na miséria.


O anúncio do referendo é o prenúncio da bomba atómica. Todos na Europa tentarão evitá-lo. Se for concretizado poderá significar a liquidação do euro e o fim da União Europeia como a conhecemos. Será a derradeira vingança da Grécia, servida gelada, a um ritmo deliberadamente pausado – ao retardador. O contrário será os gregos anunciarem Atenas como uma espécie de cidade aberta às imposições alemãs, tentando preservar alguns despojos da crise, e repetindo paradoxalmente a atitude da Wehrmacht em 1944 aquando da contra ofensiva aliada.


Mas os gregos são um povo velho e orgulhoso; Atenas é a Razão, um dos três pilares da nossa civilização juntamente com a Igreja Católica, em nome de Jesus Cristo, e de Roma com o Direito. Se o referendo se realizar há uma enorme probabilidade dos gregos não aceitarem o perdão, o que significará a banca rota do pais e muito provavelmente uma miséria extrema durante anos. Representará porém um esforço de defesa, uma disposição para a luta e a renúncia à capitulação.


Será o resultado do exercício da democracia ateniense que não interessa a nenhum de nós, que a renegaremos em nome da estabilidade da Europa. Será simultaneamente um acto de chantagem/jogada política muito arriscada, com consequências imprevisíveis.

Mapa da invasão da Grécia (Abril, 1941)