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Ponto de não-retorno

(...) Não é a derrapagem do défice que mata a união que faz deste um território, um país. É a cegueira das medidas para corrigi-lo. É a indignidade. O desdém. A insensibilidade. Será que não percebem que o pacote de austeridade agora anunciado mata algo mais que a economia, que as finanças, que os mercados - mata a força para levantar, estudar, trabalhar, pagar impostos, para constituir uma sociedade? (...)

(...) É pouco importante que Passos Coelho não tenha percebido que começou a cair na sexta-feira. É impensável que lance o país numa crise política. É imperdoável que não perceba que matou a esperança a milhares de pessoas. Ontem foi o dia em que muitos portugueses começaram a tomar decisões definitivas para as suas vidas, seja emigrar, vender o que têm, partir para outra. Ou o pior de tudo: desistir.

Foi isto que o Governo estragou. Estragou a crença de que esta austeridade era medonha e ruinosa, mas servia um propósito gregário de que resultaria uma possibilidade pessoal. Não foi a austeridade que nos falhou, foi a política que levou ao corte de salários transferidos para as empresas, foi a política fraca, foi a política cega, foi a política de Passos Coelho, Gaspar e Borges, foi a política que não é política. (...)


Pedro Santos Guerreio in Negócios on line de 12 de Setembro de Maio 2012, aqui.

Portugal Pro-Growth Agenda

Pelas 16H17m MT já Portugal era notícia nos EUA, poucas horas após o PS ter visto passar no parlamento a adenda ao Tratado Orçamental, permitido pela significativa "evolução" da posição da maioria. Os "mercados", esses sacrosantos, é que não dormem e estão em todo o lado.

LISBON (Reuters) - Portugal's parliament passed a pro-growth initiative proposed by the opposition Socialists on Wednesday after the austerity-minded centre-right government dropped its opposition amid a growing European debate on how to combine growth with fiscal consolidation. (...)
in The New York Times, 23 Maio de 2012

Robin Wells vs Paul Krugman

Mulher de Paul Krugman, durante a sessão de perguntas na cerimónia na Aula Magna aquando do triplo doutoramento dele em Lisboa (Fev. 2012).

Acerca da influência duradoura da filosofia dos "falcões" orçamentais da Alemanha sobre a política europeia, pergunta: Mesmo que ultrapassemos a crise actual, não estamos a ultrapassar a filosofia hegemónica imposta pela forma de pensar alemã. Não vejo nenhuma maturação da união económica e monetária. No longo prazo, vocês [europeus] vão continuar sob tutela germânica. Isso será receita para o sucesso? Ou, daqui a dez ou quinze anos, vamos dizer que devíamos ter feito as coisas de uma maneira bastante diferente?

A resposta de Paul foi comum: os perigos da austeridade, a falta de integração orçamental, a estrutura da moeda única, etc... Mas a pergunta, essa, feita por Robin, é a que interessa.

A evolução da dívida europeia no euro

Nas figuras seguintes pode percepcionar-se o crescimento da dívida da Europa na última década (2000-2010), e que abrange o período de vigência do euro (em circulação desde 1 de Janeiro em 2002). No que respeita a Portugal, a dívida relativamente à percentagem do PIB cresceu de 51% em 2000, para 110% em 2010. Curioso verificar que a Itália, Grécia e Bélgica têm dívidas em torno de 100% dos respectivos PIB, há mais de uma década.

O NYT abriu um espaço de debate on line sobre Portugal, intitulado What Went Wrong in Portugal?, e que pode ser acompanhado aqui







Sources: European Commission; Eurostat; Bloomberg


 

O Preço da Democracia na Europa

Parece cada vez mais consensual que a crise da dívida dos estados periféricos do Euro não é resolúvel através de mecanismos de austeridade. O "crescimento" está de volta ao discurso económico e à dialéctica política europeia.

Infelizmente que para Portugal, Grécia e provavelmente Irlanda, esta mudança de abordagem chega tarde. O caminho foi definido pelas "troikas" e está a ser trilhado pelos respectivos governos, com maior ou menor afinco, consoante a agenda política. Em Portugal o governo esmera-se pelo rigoroso cumprimento do acordo de assistência financeira. A recessão instalou-se e o crescimento, na prática, não faz parte da equação.

Segundo muitos economistas, a restruturação da dívida portuguesa ou um novo "resgate" financeiro são cenários prováveis. Ontem em Davos, Kenneth Rogoff, economista da Universidade de Harvard e estudioso das crises financeiras, dá como certa a necessidade de restruturação das dívidas grega e portuguesa e, como prováveis, a irlandesa e espanhola.

Adverte porém para a impossibilidade política dos ajustes necessários poderem ser executados em democracia. Em entrevista ao WSJ diz Rogoff: You can’t just ask the peripheral countries to just suck it up and then pay because they are being asked to do things politically that have just never been done,” he said. “We looked at the case of Romania, where [former dictator Nicolae] Ceausescu became fixated on repaying the debt. They did it, but no one could have heat during the winter. The people were miserable. It’s simply not sustainable in a democracy.

Não vale a pena iludir. Vai ser necessário mais dinheiro e mais ajuda dos nossos parceiros da UE e do FMI.

O início da espiral


O corte efectuado na passada sexta-feira pela Standard & Poor’s no rating de nove dos 17 paises do euro, teve repercussões imediatas no mercado da dívida, atirando o prémio de risco da dívida portuguesa relativamente à alemã para o máximo histórico. Trocando por miúdos: o seguro que os investidores exigem para comprar dívida portuguesa e cada vez maior.

Wolfgang Munchau, cronista do Financial Times interpreta a "crise do euro" desta forma: (...) A zona euro caiu numa espiral de desclassificações, quebra de produção económica, aumento da dívida e mais desclassificações. A recessão está no início. A Grécia está agora incapaz de cumprir a maior parte dos seus compromissos e pode ter de deixar a zona euro. Quando isso acontecer, as atenções vão voltar-se imediatamente para Portugal e vai começar o próximo ciclo de desclassificações. (...)
(...) Nem mesmo as reformas económicas, apesar de necessárias por outras razões, conseguem resolver este problema. Esta é outra das ilusões europeias. Chegámos a um ponto em que uma resolução eficaz da crise exigiria uma forte autoridade económica central, com o poder de cobrar impostos e alocar receitas em toda a zona euro. Mas não é isso que vai acontecer, claro.
Esta é a principal implicação das descidas de notação da semana passada. Estamos para além do ponto onde uma solução técnica funcionaria. As ferramentas estão esgotadas.

Wolfgang Münchau in Financial Times (Fonte: http://www.presseurop.eu/pt/)


A "solução" baseada em fundos de resgate associados a mecanismos de austeridade, acabou. Aguarda-se uma nova receita; um novo paradigma. E Portugal vai estar na linha da frente.

Fonte: New York Times, 13-01-2012



O sacrificio da salvação (do Euro)

Esta semana será decisiva para o euro, para a Europa e para Portugal. Ditará o rumo das nossas vidas por muitos anos. Criará um novo paradigma de soberania sob imposição e orientação da Alemanha, enquanto que internamente cultivamos "um amplo consenso político" sobre o ilusório programa de assistência financeira. O sacrífico vai comecar.

Francisco de Zurbarán. Agnus Dei (The Lamb of God), CA. 1635-40. Oil on Canvas.


O pós-democracia

Houve o pós-guerra, o pós-25 de Abril, e agora o pós-democracia. Ninguém sabe o que será mas parece que está a começar por estes dias. Admito que possa corresponder ao fim do euro, mas mesmo que assim não seja e que o euro sobreviva ao torniquete do eixo franco-germânico, algo parece ter definitivamente mudado. Falta a “voz” da Inglaterra, que tem mantido uma posição “oportunista” em defesa da sacrossanta libra. Segundo os “europeístas” mais convictos, os ingleses têm revelado falta de solidariedade e falta de cultura europeia. O curioso é que consta que os mais “esclarecidos” e endinheirados da nossa praça, têm usado a libra como moeda refúgio.

Inquietação

Há um pressentimento muito generalizado que algo vai acontecer nas próximas semanas na Europa. Algo relacionado com a economia, com o euro, ou com a organização europeia, que pode alterar “o estado das coisas”. É um prenúncio fundamentado em sinais ténues, quase sibilinos, mas que vêm crescendo de forma consistente e que concretizam a ideia de que a austeridade não resolverá de per si o problema das dívidas públicas, e que estas são um problema abrangente.

É um avanço muito significativo relativamente ao ponto de partida, que vem dar razão àqueles que, desde início, defenderam a necessidade de uma “solução europeia integrada”. Neste particular importa reconhecer que a “esquerda” viu primeiro e viu mais além. Resta saber se a mudança que se avizinha vai no sentido da responsabilização colectiva, abandonando a tese do “castigo dos incumpridores”, ou se pelo contrário, irá impor uma espécie de “período de quarentena” aos países em dificuldade, restringindo direitos e soberania e impondo-lhes um controle tecnocrático.

Singularidade

Este foi o termo utilizado à alguns dias atrás por Viriato Soromenho-Marques para caracterizar o que seria o colapso do euro – uma singularidade. O termo foi utilizado num contexto específico: o da astrofísica. Significa um ponto no espaço-tempo em que a densidade (associada à pressão e temperatura) se torna infinita e onde as leis da física que regem/explicam o comportamento do universo são ultrapassadas. Configura portanto um ponto/momento de desconhecimento acerca do comportamento das coisas; uma passagem para o “outro lado” do universo. A analogia com a crise do euro acentua principalmente a questão da incerteza e imprevisibilidade acerca do “dia seguinte”: o comportamento da economia global perante o desaparecimento de uma moeda regional.

Embora do domínio do simbólico, não deixa de ser interessante o recurso a um conceito da linguagem do universo para perspectivar o fim do euro. Também não ajuda o facto dos cientistas admitirem que a cada singularidade corresponde um buraco negro, ou vice-versa.

Migrant Mother

Para muitos esta imagem de Florence Owens Thompson, 32 anos, mãe de sete filhos, que fez a primeira página de todos os grandes jornais dos EUA em 1936, é a representação perfeita da Grande Depressão (1929-1933). Faz parte de um conjunto de seis fotografias tiradas por Dorothea Lange junto à tenda onde Florence vivia com a família, em Nipomo na Califórnia, utilizando uma câmara Graflex e um filme de 4x5".
 

Actualmente, com as técnicas de tratamento digital de imagem, tem-se experimentado com relativo sucesso a coloração de fotografias. No caso de Migrant Mother este exercício reveste-se de um simbolismo particular que é o de “actualizar” a imagem ao tempo presente. É um flashforward da crise que se avizinha.

Causas da Depressão 1929-1933

What are the main factors that cause the Great Depression?
The Great Depression was a worldwide tragedy in which many countries was affected. Many historians have came up with many reasons that might have caused the depression. However there were 3 main big factors that many historians have cited as important. The Great Depression was caused by the stock market crashing, bank failure, and reduction in spending money.

The first significant event that caused the Great Depression was the stock market crash on the "Black Tuesday", October 29, 1929. This event caused a dramastic fell in chair prices and only 2 month later after the event, stockholders had lost more than 40 billions dollars. In 1930 altough the stock market began to rise, in 1932 the stock market fell 89 percent from its price in 1929. Many historians believe that this event lead to the Great Depression because this event destroyed alot of the people's confidence in investing. As a result many people withdrew money from their accounts causing many banks to become bankrupt. As banks failed and became corrupt, many banks tried to raise money by calling their loans back from people who didn't have enough time and funds to repay the money.

(...) Another main factor that caused the Great Depression was the reduction in spending money of people in all class. Because of the stock market crash and the bank failure many people chose not to invest and and many consumers spent less money on consumer goods. This caused a reduction in the number of items produced. Causing more unemployment around the world and less availability of consumer goods. As the unemployment increased people spent even less money so more and more people were left jobless.

Fonte: http://isemodernworldhistorygrade9.wikispaces.com

O regresso dos tecnocratas

Os mercados e o directório franco-germânico ditam a queda dos dirigentes políticos legitimados pelo voto dos povos, e persuadem a sua substituição por homens providenciais, escolhidos entre antigos técnicos de instituições europeias. Esta substituição é feita administrativamente, por consenso, sem escrutínio popular. Não são homens eleitos, são tecnocratas nomeados pelas nomenclaturas e pela intelligentia das elites.


Papademos e Monti não foram sufragados pelo voto; foram escolhidos por confiança para implementar os planos de austeridade definidos pelo directório. São homens de mão; instrumentos para aplicação de políticas económicas que provavelmente não teriam aceitação popular. Esta estratégia poupa os partidos à humilhação das derrotas eleitorais, que por isso a aceitam e se demitem da sua função: definir estratégias económicas e sociais aceites democraticamente e eleger protagonistas para a sua implementação. E isto já não tem a ver só com a crise do euro: é a decadência de um modelo de organização política que tem vindo a ser enxertado pelas necessidades conjunturais.


Em Portugal este tipo de arranjo consensual baseado num homem íntegro, tecnicamente competente e austero, custou-nos 48 anos de ditadura e mais alguns de aprendizagem democrática. Merece-nos portanto a maior das apreensões.

O benchmarking de Portugal

Nestes dias da crise acentuam-se as comparações e as "espreitadelas" ao que os nossos parceiros da UE fazem, e em especial ao que fazem melhor. Durante alguns anos comparámo-nos com a Espanha e pouco mais, mas hoje, com o mercado globalizado, estendemos a nossa atenção a outros: Grécia, Irlanda, Bélgica, Eslovénia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Estónia, Letónia, Lituânia, Malta, Chipre, etc.

Procuramos assimilar as "melhores práticas" através das "mudanças organizacionais" com vista à "melhoria dos resultados". No fundo tentamos aprender com os que fazem bem, aquilo que também produzimos, mas com menor eficácia. Estamos no chamado "processo de aprendizagem".

Para nos mantermos em perspectiva com os outros sugiro este sítio, onde podem experimentar várias comparações. Neste aqui é mais a sério.
Tirem cinco minutos e surpreendam-se!